domingo, 15 de agosto de 2010

O som e a ciência.

O lounge estava repleto de jovens aquela noite. O ambiente sofisticado exalava uma aura de sensualidade e elegância. Alheia a toda badalação, ela parecia distrair-se com as pequenas bolhas em seu Champanhe. Seu vestido branco flutuando ao sabor da brisa marinha.

Eu apenas a observava entre a amargura de meus goles. Três amigos me faziam companhia. Ítalo, André e Jorge. André o melhor.

Enquanto meus mosqueteiros gargalhavam suas pérolas, eu ruminava as minhas.

Lembrei de Marina. Paixão do instituto Goethe, curso de alemão. Nunca estive à vontade para me aproximar dela. Três gerações de homens carrancudos garantiram-me o gene familiar da austeridade. Foi num barzinho, contudo, quando enfim André conseguiu me alcoolizar até a desinibição, que pude abordar Marina na volta do banheiro.
Quisera parecer divertido, espontâneo:

- Tava dando uma cagadinha, ein?

- Idiota!

Abandonei o curso de alemão.
Sheizen!

Por conta desse evento, cada vez que eu olhava a moça de vestido branco naquela varanda sobre o mar, uma revolta contra minha estirpe ia minando meu ânimo.
Tão linda e nunca minha.

Virei a longneck como se gritasse para dentro de mim. Sem que os mosqueteiros esperassem, levantei-me e segui em direção a moça.

Livre de qualquer esperança, eu tirei meus óculos e lhe entreguei.
Surpreendida em suas bolhinhas, ela me olhou com um sorriso doce quase debochado:

- Pra que isso?

- Depois de olhar pra você, prefiro ficar cego a olhar pra outra mulher! – Falei já me sentindo ridículo.

Minha angustia pairou no ar.

- Que fofo! – Ela disse. Havia gostado.

Era simples assim? A resposta estivera sempre debaixo, digo, em cima de meu nariz?
Não pude acreditar.

Passada a tensão inicial, conversamos bastante.
Ela trabalhava no Bradesco e morava com uma amiga. Ouvia MPB e hip hop; gostava de comida japonesa e italiana; lia Stephen King.

Meus amigos se revezavam eufóricos, faziam gestos de aprovação pelo abrupto de meu progresso: eu estava superando as cagadinhas de todas as Marinas por quem me apaixonei.

Endividei-me muito aquela noite!
Desembolsei mais três garrafas do Champanhe dela!

Pediu-me uma carona. Eu pedi para subir. Exigiu-me silêncio. Eu exigi só mais um beijo. Implorou-me ajuda com o sutiã. Eu já não tinha mais o que implorar.

Tudo era macio ao toque: o loiro do cabelo, o branco da tez, o rosado dos seios e dos lábios pequenos. Desvendei em seu interior cada uma das propriedades do veludo.
Movimentos loucos arrasaram os lençóis. Dois ciclones enfurecidos.

Foi justamente em uma das trocas de posição que o som fez-se ouvir. Um ronco mole como uma flatulência.
Com num impulso de auto-defesa ela perguntou:

- O que foi isso?

Seu embaraço, porém, impregnou o ambiente. Eu precisava dizer algo reconfortante. Precisava?
Apelei para a fisiologia da questão:

- Chamam de Punceta.

- O quê?

- Punceta. Esses barulhos acontecem pelo acúmulo de ar na vagina, que pode sair rápido durante a penetração. Depois de certa idade algumas mulheres podem ficar com o músculo da região mais frouxo, aumentando a abertura. Alguns casos indicam uma cirurgia de correção chamada perineoplastia.

Sorri triunfante com a elucidação da questão!

Ela me olhava incrédula.

- Idiota!

Empurrou-me porta afora. As roupas em seguida pela janela.

Nunca mais voltei ao bar onde a conheci, evito até mesmo as agências do Bradesco.

Marina, no entanto, já se formou, e agora eu posso voltar pro curso de alemão.
Sorte a minha, só faltavam três livros.

Nenhum comentário:

Postar um comentário