domingo, 15 de agosto de 2010

Qualquer coisa para você

Uma repulsa de imediata correu pelo meu sangue, quando encontrei em minha mente, aquela cena. Tentadoramente infeliz: “Tocava seus lábios com a ponta dos meus dedos. Ela franziu o cenho, tentando ler minha expressão. Minha mão desceu de seu rosto, deslizando por sua pele macia e frágil. Chegaram até sua silhueta, perfeitamente moldadas. Ela moveu seus lábios cortados em minha direção, como um ímã eu os segui. Minhas mãos caíram, meus lábios recuaram, meus olhos se encheram de água imediatamente e eu corri, fugi de perto dela. Não olhei para trás, para não tornar mais dolorosa minha partida, sabia que isso me dificultaria. Mas acho que ela ficou imóvel, quieta.”.
Francamente não sei mais o que esperar dela, não sei por que ela insiste em me procurar, em saber de mim. Insiste em me fazer cada vez sentir pior. Ela insiste em mim, assim como eu insisto em não tê-la mais aqui comigo. Meus olhos negros se focaram em um fim trágico, e assim será. Seus olhos verdes desbotados não ousam entreter minha mente, não mais.
Direcionei a xícara de café para meus lábios e queime-os sem me importar. Minha vontade fora de cuspir e nunca mais pensar naquele gosto amargo em mim, mas ele me fazia bem. De alguma forma. Logo lembranças cobriram minha mente novamente: “Um desejo incerto cobria meus lábios, uma sensação nova para mim: frisson. Era tarde da noite, e ninguém receberia meus telefonemas naquele horário – às três e quinze da madrugada – ou talvez alguém. Alguém que eu não fosse capaz de arriscar, alguém que eu não fosse capaz de destruir, não naquela noite. Fitei o telefone uma inquietação dominava meus sentidos. Qualquer coisa que eu fosse fazer, não seria pior do que o que ela fez. Ela pôde ser cruel o bastante para fazer isso, por que eu não?
Disquei o número devagar, sem pressa. Acomodei-me na cama, tomei o café calmamente e deixei que me queimasse.
- Olá. Quem é? – Ela não havia mesmo lido o nome de quem ligava ou ao menos o número? Ela havia mesmo apagado tudo que havia sobre mim nela? – É… É você?
- Depende. Quem espera que seja? – Eu disse tentando reagir, ela rosnou tentando comprimir o riso. – Antes de desligar, me dê uma chance de dizer… – Eu gemi.
- Olha, pode ser outra hora, estou meio ocupada agora. – ouvi um ruído no fundo, outro coração batendo, além do dela. Um palpitar suave e melancólico.
- Hã? – não compreendi. Ela estava com alguém? Como podia estar? Perguntas se formaram depressa em minha mente, eu gemi novamente. Perdi todo meu ar, meu coração batia mais rápido, o que me impedia de ouvir sua respiração fraca do outro lado da linha. – Pode… Dar-me um segundo?
- Hoze, eu preciso ir, preciso desligar. Não percebe? Acabou, tudo já se foi faz um tempo. Tempo necessário para você me odiar, para você sentir nojo e pena de mim. – Ela estava fria, sua voz estava oca. Um sussurro no fundo impediu que ela continuasse. – (Deixe-me… Falar com ela? Dê-me… O. Telefone.) – O telefone se moveu fazendo um barulho estranho e ouvi uma voz, conhecida. Eu conhecia aquela voz. Aquela voz doce e ingênua. – Me desculpe por isso. Ela… Ela gosta de você. Eu gosto de você. Queremos que fique bem. – Soltei o telefone ao voltar a mim e reconhecer a voz, caí no chão, o café caiu também, molhando o chão onde eu estava. Nada mais me importava naquele momento. Nada que não fosse a voz ressonante e devastadora do outro lado da linha. – Ainda está aí Hozana? Ainda está bem? – Deixei que ela falasse sozinha um instante. Até ouvir uma voz fraca no fundo. – (Me dê o telefone!) – Agora ela queria falar comigo? O que mais ela poderia fazer para me destruir? – Hoze? Como está? Insisto, não fique assim. Tudo vai ficar bem, tudo vai ficar… – Ela se calou. Onde estava a voz dela? Onde estava a calma? Onde estava a dor?
- Er… – eu gemi, meu estômago embrulhou devagar, me fazendo querer vomitar, me fazendo ter nojo de tudo e de todos. De tudo menos daquela voz. Que insistia em calar-se. Obriguei meus lábios a se moverem devagar, obriguei minha língua a pronunciar aquilo. Obriguei meu coração a continuar batendo, obriguei meu ouvido a encontrar um som adequado ali. – Ann… – Outro gemido, desta vez mais alto, lágrimas cobriram meus olhos devastadoramente, me fazendo gemer de agonia e dor. – Por favor… Por… Fa… – fui impedida pela linha sendo desligada. E uma voz anunciando: “Seus créditos acabaram, confira as promoções e recarregue já.”.”
Joguei meu corpo ao chão, olhei para o teto úmido, olhei para as marcas no chão, olhei para o vazio na casa. Olhei para as cobertas caídas entre a cama e o chão. A janela coberta por uma névoa estranha. E um som – ensurdecedor – batendo em minha mente. Dominando minha mente, dominando minha capacidade de pensar. Algo como: “Hoze! Fale comigo! Eu nunca devia…”
Depois disso, apenas um som que eu esperara ouvir a tanto tempo. Um som que eu esperava que me deixasse surda o som aterrorizante e quieto, o som incrível e constrangedor. Um som infeliz e cruel. Um som vazio e tímido. O som do nada.

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